![]()
|
||||||||||
ALGUNS PASSOS...MUITOS SONHOS José Carlos Blat Sentado a frente do computador para escrever a respeito da minha trajetória como Promotor de Justiça passei a recordar alguns momentos do passado e pude constatar que o caminho percorrido foi longo e árido. Em vários momentos cheguei a perder a esperança, isso porque comecei a cursar a Faculdade de direito das Faculdades Metropolitanas Unidas – FMU em 1982, mas, por obra e força do destino, só consegui concluir o curso no ano de 1992, depois de vários períodos de trancamento e abandono, ora por questões financeiras, ora por estar trabalhando em tempo integral. A lembrança ainda é viva, no início de 1982, em um dos corredores da Faculdade um cartaz anunciava a realização de um Júri Simulado, tendo como tema a pena de morte. De um lado, como Promotor Público, o Doutor Alberto Marino Júnior, do outro, como advogado o Doutor Valdir Troncoso Peres. Assisti a sessão plenária simulada, fiquei impressionado com a retórica, com as vestes talares e a discussão sobre o tema e a partir daquele instante surgiu o Ministério Público em minha vida. Até então não sabia o que representava o Ministério Público e quais eram as atribuições de seus Membros. Fui pesquisar, depois disso coloquei como objetivo em minha vida poder um dia atuar em um Tribunal do Júri de verdade. Durante a vida acadêmica não fui um aluno muito aplicado, até porque nos momentos que estava estimulado a aprofundar os estudos, sobrevinham os percalços e via o sonho da formatura se distanciar, mas mesmo assim não desisti. Nesses períodos que estava afastado da Faculdade, percorri muitos caminhos, exerci a função de caixa e cheguei a subgerente de uma grande instituição financeira, também trabalhei com minha família no ramo de restaurantes, bares e lanchonetes, onde aprendi muito, pois, acabava cobrindo as faltas dos empregados, tanto na cozinha, como no balcão e até mesmo servia mesas como garçom. Um hobby que tive na fase da adolescência, qual seja, operar mesas de som como disc-jóquei acabou virando profissão e trabalhei animando festas e eventos. A compensação financeira dessa profissão inusitada veio em seguida e pude guardar dinheiro suficiente para concluir o curso de direito, pois, não tinha abandonado o meu sonho de um dia ser Promotor de Justiça. Abandonei a profissão inusitada e resolvi investir no meu futuro. Assim, no último ano da Faculdade, em 1992, estudava 12 a 16 horas diariamente me preparando para o concurso de ingresso do Ministério Público. Durante quatro meses freqüentei um curso preparatório e como autodidata estudei todas as matérias constantes do edital do 72º Concurso de Ingresso do Ministério Público Paulista. O ano de 1993 foi decisivo na minha vida, depois de enfrentar a primeira fase do concurso de ingresso do Ministério Público Paulista, respondendo 100 questões escritas, superando a segunda fase, respondendo a 5 questões das matérias principais e apresentando dissertação sobre direito penal a respeito da relação de causalidade, e ainda depois da terceira fase, elaborando uma peça prática utilizando uma velha máquina de escrever, fui submetido ao teste psicotécnico, estava pronto para encarar o exame oral e a entrevista com os examinadores. No dia do exame oral, superei o nervosismo e fui sabatinado por 50 minutos, depois enfrentei a entrevista, não me lembro dos detalhes daquela prova, mas respondi com segurança as complexas questões formuladas pelos examinadores. A banca examinadora divulgou o resultado no mesmo Salão Azul do prédio da Procuradoria Geral de Justiça onde ocorreu o exame oral, a emoção e as lágrimas vieram com o meu nome sendo anunciado como 37º colocado no 72º Concurso de Ingresso do Ministério Público Bandeirante. Ali a minha vida passou pela memória em frações de segundos, tinha consciência que a transformação de meu destino era profunda e irreversível a partir daquele instante. Estava ingressando pela porta alta e estreita do Ministério Público acompanhado de mais 69 novos Promotores de Justiça Substitutos. A partir de 08 de outubro de 1993, a minha carreira foi repleta de conquistas, mas também cheia de decepções e dramas. Em 1995, consegui me promover para Diadema onde exerci atribuições perante o Tribunal do Júri daquela Comarca de 3ª entrância. No ano de 1997, o escândalo da Favela Naval caiu como uma bomba em Diadema e transformou minha vida em um verdadeiro inferno.
Os holofotes e as ameaças de morte se fizeram presentes no meu cotidiano, tornei-me conhecido como um combativo Promotor de Justiça que enfrentava sem temor as pressões e os ranços corporativistas de integrantes da Polícia Militar, mas em compensação perdi por completo a privacidade e conquistei centenas de inimigos. Em março de 1998, já na Capital, como 6º Promotor de Justiça do IV Tribunal do Júri, fui convidado pelo Procurador Geral de Justiça para integrar o Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado – Gaeco. Depois de enfrentar a “máfia dos fiscais”, a “máfia chinesa”, a “máfia dos combustíveis”, a “máfia dos transportes”, o caso da “Cracolândia”, o caso “ Águas Espraiadas”, o caso “ Lobão”, a “máfia da pirataria”, dentre outros, após meu desligamento do grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado, reassumi o cargo de 13º Promotor de Justiça Criminal da Capital. Hoje, com muitos inimigos, continuo a exercer o meu trabalho com o mesmo afinco e entusiasmo dos primeiros instantes quando ingressei no Ministério Público do Estado de São Paulo. A fama, ao contrário do que muitos pensam também gera desgastes e desilusões. Olhando para o futuro, refletindo toda a trajetória percorrida, vejo que ainda há muito a ser trilhado com orgulho, esperança, destemor, cidadania e que a minha, a sua, a nossa colaboração na construção de um País mais justo e digno apenas começou. |
||||||||||